Procuro entender o Rio. Percorro suas ruas, em minhas múltiplas andanças para ir a escolas, com olhar da antropóloga que não sou. Olho as pessoas com calma e tento decodificar valores não visíveis a olho nu. O que as move? Pergunto-me o que faz com que padrões de conduta, por vezes diversos dos meus, marquem esta cidade, agora minha cidade.
Mas é sempre em fins de semana que este exercício se torna menos prosaico e desperta meu espírito investigativo.
Num destes domingos, entro na Livraria Travessa de Ipanema e me deparo com o José Murilo de Carvalho. Não com ele pessoalmente, embora já o tenha encontrado em duas ocasiões formais, mas com seu livro “Os bestializados”. Curiosa com o título provocativo, decido comprar, ao constatar que se trata de uma análise de um episódio curioso da História do Rio: a revolta da vacina, ocorrida em 1904.
A leitura desta interessante obra, publicada em 1987, permite-me percorrer não só a narrativa da revolta, como os tropeços do início de uma república que não foi proclamada atendendo a clamores populares. Mostrou-me também que o povo, percebido com grandes preconceitos por quem tinha acesso às letras e à renda, existia e tinha suas formas de se expressar.
O que mais me encantou, no entanto, talvez por meu momento de vida, foi a descoberta de um Rio que me explica suas razões, seus condicionamentos históricos. Um Rio que aprendo a amar.

Borges dizia que toda a literatura é autobiográfica. De fato, quando o autor nos coloca frente a um enredo ficcional, revela mais do que a história. Conta-nos muito de si mesmo: suas percepções, valores e até demônios internos. Fala-nos também de suas geografias: lugares que amou ou odiou, viagens que ambicionou fazer, aventuras em que se envolveu de verdade ou em espírito.

Cada vez mais procuro o território ou o ambiente nos relatos. Isso porque a leitura também carrega uma tentativa autobiográfica. Ao menos a minha é assim. Quero reencontrar meus lugares, vividos ou imaginados. Quero até me surpreender com o que nem consegui imaginar e, ao me defrontar com tal espaço, reconhecê-lo como familiar.

Em muitos casos recorro a mapas, desenho trajetos em cidades que nem conheço. Ulisses permitiu-me, numa segunda leitura, percorrer ruas, praias, visitar lojas e acompanhar barcos numa Irlanda que nunca visitei. Ora, nada disso ocorreu quando o li pela primeira vez. Simplesmente acompanhei o enredo.

Dois livros que li recentemente me levaram a um contato mais forte com geografias, por motivos diferentes: o Rei Branco de Gyorgy Dragoman e Onitsha de Le Clézio, de que já falei neste blog.
O primeiro livro reúne dois países que me são caros, a Hungria e a Romêmia. Meu pai é romeno e minha mãe húngara. Gyorgy, como meu pai, nasceu na Romênia, mas integrava a minoria húngara. O livro se passa numa Romêmia que me pai conheceu, em que a ditadura invadia todos as dimensões da vida cotidiana, a ponto de se fazer presente na vida de uma criança que vive as consequências de uma mesquinharia que não vem só do regime. Cresci ouvindo histórias que poderiam estar presentes no livro.
Em Onitsha, uma Ãfrica vibrante, mas difícil, onde o africano é visto com certo desdém e preconceito por colonizadores ou mais recentemente por quem nela vai fazer negócios ou viver temporariamente. Esta Ãfrica que conheci e amei.
Livros que contam histórias de viagens que fiz ou farei. Ao menos percorrendo paisagens que ficarão como páginas escritas, paisagens ficcionais repletas da vida de seus autores. Repletas da minha vida.

Tenho a privilégio, desde que cheguei aqui no Rio de Janeiro, de ver o mar todos os dias. Da janela de onde escrevo agora, vejo-o acinzentado com riscos mais claros evidenciando correntes. Nenhum barco se atreve a arriscar-se nestas águas, dado o adiantado da hora e a previsão de chuvas fortes.
Mais cedo, numa caminhada interrompida pela chuva, o sol aparecia um pouco e o mar mostrava-se azul, perto de uma praia com bandeiras multicoloridas saudando turistas que vieram para a Parada Gay da cidade. É sempre um momento forte a apreciação do mar. Curioso: aprende-se a apreciar música, a se encantar com obras de arte mais instigantes, mas nascemos gostando do mar.
Muitos livros falam da relação entre o homem e o mar. Joseph Conrad tem vários bons livros nesta linha e o consagrado O Velho e o Mar do Hemingway marcou minha adolescência.
Mas foi com surpresa que voltei ao tema ao ler Onitscha, do prêmio Nobel de Literatura de 2008, Le Clézio.Já havia lido dele o Africano, onde parte de sua infância é reescrita como romance e o cenário é a Ãfrica. Em Onitsha, mãe e filho se encontram num navio, Sarabaya, a caminho do continente africano e constroem representações sobre a cidade da Nigéria onde se encontra um pai desconhecido para o garoto e amado mas temido pela mãe.
Nos capítulos iniciais, o navio ocupa a cena, mas deixa vislumbrar um mar que esconde o futuro, enfeita o pôr do sol a cada dia e permite que a costa da Ãfrica se mostre progressivamente, desnudando-se aos poucos. Os pássaros que fazem rasantes sobre o navio, tentando entender o curioso grupo humano que se desloca nas águas, também travam relação com um mar que agora se encosta em cidades africanas quentes e de pronto detestadas por Maou, a mãe do menino.
Da mesma forma como amo o mar, tive um contato amoroso com a Ãfrica, que conheci na década de 80. Não se me afigura, o continente, como um lugar a ser rejeitado, mas como uma terra depositária de um segredo, como diz o livro. Ao desvendá-lo, o mundo saberá reconstruir sua história.

Conta Alberto Venâncio que Fernando de Azevedo, o mineiro que revolucionou a educação do Rio e de São Paulo, foi procurado pela oposição que lhe disse que só aprovaria seu projeto de Escola Nova, caso aceitasse oferecer 50 % dos cargos da sua pasta para eles. Ele recusou. Pouco depois, o próprio prefeito da época, Prado Júnior, fez-lhe proposta igual, o que foi novamente recusado pelo sociólogo.
Desta firmeza, nasceu uma das mais profícuas reformas educacionais, em que a educação aparecia associada ao progresso humano. Colocou toda a ênfase em formação de professores e, para tanto, criou o Instituto de Educação. O principal ponto formulado por Fernando de Azevedo e seus pares, no Manifesto de 32, foi o da implantação institucional da política educacional pública, sob inspiração republicana. Interessante que, naquela época, já falava em educação para todas as crianças, que deveriam, nas escolas, se preparar para um futuro melhor, como profissionais e cidadãos, num contexto de crescente industrialização de nossa economia.
As reformas são feitas por obstinados. Gente que tem crenças fortes, conhecimento técnico e determinação para mudar as coisas. Ajuda se, além disso, estiver disposto a gastar tempo interagindo com as pessoas envolvidas para “mudar mentalidades” e se assegurar que aflorem novas verdades. ” A verdade” dizia Fernando de Azevedo “nem sempre é o que reveste caráter surpreendente, com seus aspectos inéditos, mas o que, rompendo a crosta da indiferença geral, surge das coisas esquecidas.
Maria Luiza Penna concorda com a versão de Alberto Venâncio. Ressalta o grande desafio da inclusão. Alguma coisa se perdeu na qualidade do ensino quando todos foram finalmente incluídos. Adultos que tinham apenas 4 anos de escolaridade, relata a historidora da Educação, liam e escreviam perfeitamente.

Fui, este domingo, visitar meus pais no Clube de Campo de São Paulo, à beira da represa de Guarapiranga. Lá passava férias e fins de semana, durante toda minha infância e adolescência. Encontrei no terraço uma conhecida e me sentei para conversarmos um pouco. Minutos depois, um velho amigo do meu irmão, o Pink, pergunta se pode se sentar também. Minutos depois perguntou de minha mãe e se eu autorizaria uma conversa dele com ela.
Surpreendentemente, eu sabia o tema: busca de raízes. Também vivi isto. Mas deixo-o falar, constatando, de repente, que não conhecia seu nome, nem sobrenome, apenas aquele apelido que vinha de seu modo curioso de andar, semelhante ao da Pantera Cor de Rosa. Numa brincadeira de adolescentes virara Pink.
Pink me contou então que seu pai, imigrante húngaro, já falecido, raramente falava do passado. Com sua morte, começara a juntar pedaços e a desconfiar que ele era judeu. Mais ainda, que havia algo entre ele e Raoul Wallemberg, o cônsul sueco que havia salvo tantas vidas de judeus húngaros. Ninguém estava mais vivo para esclarecer as dúvidas de Pink. Então ele se lembrou de minha mãe.
Nunca teria imaginado que Pink tivesse alguma conexão com minha mãe, mas prometi intermediar o encontro dos dois. Então ele me deu um pedaço de papel onde escreveu seu nome e email- Marco Szili.
Uma luz se acendeu e me lembrei de minha avó, Mimi, falando de um certo Szili.
Pouco depois almoço com meus pais e falo do Pink. Ao ouvir o nome Szili, meu pai disse que naturalmente ele era judeu. Mais ainda, conta que uma tapeçaria que temos em casa teria pertencido a ele. Quando chegara ao Brasil, sem dinheiro, Szili a vendera a um antiquário e meu pai então a comprara.
Minha mãe emocionou-se. Disse que o Szili fora um dos jovens de um grupo que conheceu quando, aos 17 anos, chegou ao Brasil. Nunca imaginara que o Pink, amigo do meu irmão, fosse filho deste senhor e que ele, como boa parte dos húngaros que aqui chegaram, traumatizados com o que passaram em sua terra natal, evitava já então, tocar no assunto de suas origens. Ele era húngaro. Ponto.
Por que somos condenados a reencontrar questões que a geração anterior quis ocultar? Depois de todas estas lembranças e conversas, fiz um passeio ás margens da Guarapiranga, lembrando do “Em busca do tempo perdido” do Proust, obra que me marcou muito. Há, para cada um de nós, uma história que precisa ser contada e que sabores, cheiros, encontros casuais evocam. Não temos como fugir delas e continuar saudáveis, pois elas nos definem. Elas são partes de nós que não temos como expulsar.

Minha paixão por leitura rendeu-me experiências interessantes. A primeira foi conhecer a Biblioteca Infanto-juvenil Monteiro Lobato, onde dos 12 aos 16 anos passava parte das minhas tardes. Em seguida, foi o fato de viver em uma casa com pouco espaço para enfeites e quadros, dado que os livros ocupam todo o lugar. Mas uma das coisas mais lindas de que me lembro em relação aos livros, foi minha relação com meu tio Aristide.

Aristide era bibliófilo. Tinha uma biblioteca imensa, repleta do que há de melhor na literatura francesa, russa e romena. Ao observar meu interesse pelos livros, prometeu-me que herdaria sua biblioteca. A cada visita minha a Paris, onde ele vivia, testava meu francês e minhas leituras para ver se havia feito uma boa escolha. Sim, eu cuidaria dos livros e sim, leria todos os que pudesse.

Morto em 1987, sua esposa, Gallia, sobreviveu mais uns 15 anos. Não queria lembrá-la da promessa de meu tio, para que não se angustiasse, mas um dia ela me perguntou o que desejaria receber quando ela se fosse. Lembrei-a da promessa de meu tio. Ela me propôs então que, a cada vez que a visitasse, levasse um ou dois livros, para começar a instalar a nova área da minha biblioteca pessoal.

Gallia morreu em 2000 e recebi 40 caixas de livros, que custaram a ser liberados, dada a desconfiança da Aduana. Inicialmente, deixei-os separados dos meus livros, como uma sala “Aristide”. Alguns anos depois, julguei que já poderiam viver juntos, os meus livros e a bela coleção do meu tio. No entanto, pouco espaço sobrou para hospedarmos nossos 4 filhos que vivem fora de casa ou outros visitantes.

Esta semana, ao ir à livraria Travessa, encontro o interessante estudo de Herbert Lottman, chamado “Rive Gauche: escritores, artistas e políticos em Paris 1934-1953″. Reencontro-os lá todos, os autores dos livros do meu tio. Leio-o com avidez, como quem lê um livro bem escrito sobre um antepassado querido.

Vira a Eliane em reuniões de diretores , alegre e amistosa. Mas são mais de 1.300 diretores. Não tinha idéia da localização de sua escola.
Um dia, chega a notícia que, nas férias escolares, uma diretora convidou os alunos de 5o ano, para, por meio de atividades lúdicas, rever os conteúdos de matemática.
Achei admirável e quis ir visitar esta escola- que, por ser uma das unidades nas áreas mais violentas do Rio, fora incluída no cronograma de visitas deste ano, mas um pouco mais para frente.
Ao chegar, as bandeirinhas da festa junina estavam sendo recolhidas. Afinal, a festa fora na semana anterior- na verdade, uma festa julina. Eliane, à porta, pronta para exibir sua escola. Alegre, comenta o sucesso da festa e mostra fotos dos alunos no mural da escola.
Duas crianças nos seguem e tiram fotos: são os repórteres do jornalzinho da escola que conta apenas com educação infantil e de 1o a 5o anos. Atentos a sua função, os jovens jornalistas anotam e fotografam tudo.
Encontro outras crianças em duas salas, uma de Português e outra de Matemática. Pergunto como surgiu a idéia. Diz Eliane que, na segunda prova bimestral todas as séries melhoraram as notas, menos o 5o ano. Assim, achou que era seu papel fazer algo para que este mau desempenho fosse superado antes que fosse tarde.
Constato que as atividades escolhidas para ensiná-las são mesmo lúdicas e todos parecem contentes de estar na escola nas férias. Não usam uniformes, conversam fácil.
Pergunto, na primeira sala, quais seus sonhos. Os meninos preferem ser jogadores de futebol, bombeiros, militares. As meninas falam de professoras, médicas, veterinárias. Uma menina atenta diz que quer ser bióloga, um rapazinho prefere ser empresário. Conto que terão laboratórios de ciências em cada sala de aula. Os olhos da pequena “bióloga” brilham.
Na outra sala me ouvem e respondem às minhas perguntas, mas não interrompem o que estão fazendo:um jogo chamado Calculando, inspirado no Soletrando do Luciano Huck.
Vamos para a sala dos professores e descubro que esta diretora é filha de outra, já falecida, que tem uma escola com seu nome na região: Vera Saback. Eliana está mudando o futuro destas crianças, como sua mãe provavelmente tentara fazer.
Lembro do texto de Stendhal sobre a vida de Mozart. Em um trecho, um estranho vem visitar Mozart, já muito fraco, e lhe solicita a composição de um réquiem. E Mozart dedica-se noite e dia à obra, chegando a comentar:
- “Uma coisa é certa, é para mim que faço esse Réquiem; servirá para meu serviço fúnebre”.
Queremos dar um sentido à vida e criamos obras. Alguns fazem edifícios imponentes, outros criam possibilidades de futuro.
Eliane, uma diretora especial.

Fim de semana em São Paulo. Assisti, a convite do Marcos Caruso, a estréia da peça As pontes de Madison e me emocionei. Sincronicidade jungiana absoluta. Primeiro pois almoçara na véspera com o Roberto Civita e falamos, entre outros temas, de escolhas e destino, tema importante na peça. Também pois o Marcos, que conheci quando adolescente, contracena com Jussara, sua ex-mulher que igualmente viveu um momento engraçado comigo quando ambas tínhamos filhos pequenos. Finalmente, pois fui visitar, no dia seguinte, os meus meninos de São Bernardo, para quem havia coordenado um círculo de leitura com o Banquete de Platão e outro com dois livros de Guimarães Rosa. Chego na casinha e eles estão discutindo Machado de Assis, mais esepcificamente destino e vocação. Falo-lhes da peça. Um havia assistido o filme e eles me pedem que lhes conte como o destino e a vocação aconteceram em minha vida. Depois de falar constato como cresceram e como sinto falta deles. Ser secretária da educação leva a um olhar mais a floresta que cada árvore. Aline, minha arvorezinha querida, como foi bonito ver você, a menina que gosta igualmente de Platão e de Harry Potter!

Visito a Escola Municipal Abelardo Barbosa Chacrinha. Precisamos pegar uma van para conseguir subir chegar numa das mais lindas vistas do Rio de Janeiro. Na porta, dois cachorros esperam pacientemente seus donos. Balinha sai da frente da escola e nos recepciona, feliz. Na entrada, bem no local onde os pais esperam as crianças, o cartaz do MEC informa o IDEB da escola e sua evolução de 2005 a 2007. Alguns livros foram colocados sobre uma mesa para leitura e retirada dos pais.
A sala da diretoria tem brinquedos: um leão repousa numa escrevaninha, outros animais de pelúcia alegram a sala e cobras de verdade em vidros com formol no alto de uma estante. Nas paredes, a meta de IDEB proposta pela secretaria e, logo abaixo, um IDEB mais ousado com um comentário: Avante Abelardo Chacrinha!
Seguimos para a sala de leitura. Finalmente uma aberta! Organizada, atrativa, com livros e computadores em bom estado, mas com sinais claros de que são manuseados. Os computadores não têm conexão via Internet.
Algumas mães vêm nos conhecer- são as mães comunitárias da escola. Vamos para o refeitório, onde as crianças da Educação Infantil estão almoçando. Uma gari da COMLURB passa e sorri para elas. É a Abobrinha, como ela própria se autodenomina. Ao subir constato o Cantinho da Leitura, como livros pendurados num varal baixo e três poltroninhas em círculo. “Às vezes, eles se cansam das aulas e vêm aqui ler um pouco”
Passo pelas salas e pergunto quais seus sonhos. Novamente são futuros bombeiros, jogadores de futebol e professores. As meninas querem ser médicas, professoras e veterinárias. Todos exibem seus conhecimentos em cálculo mental.
A escola não tem quadra, mas usa a da comunidade, a uns 50 metros do local.
Problemas? “Na última Prova Brasil”, me conta a diretora, que há 19 anos ensina nesta escola” tivemos medo de ter um desempenho ruim. Foi na pior guerra da comunidade e a escola não pôde abrir por alguns dias”. O IDEB foi muito melhor que dois anos antes. Ao ouvir minha pergunta sobre como posso ajudar, ela pensa e propõe que a secretaria ajude a cobrir a quadra comunitária. Leva-me à quadra, onde um grupo animado de meninos e meninas joga handebol, sob a orientação da professora de Educação Física. A quadra fica ao lado de um acesso a uma reserva de mata Atlântica. Ao nos aproximarmos, constatamos a presença de um micro-clima, um pouco mais frio.
Dois ex-alunos passam por lá e um abraça a diretora. Ele estava acompanhado de um cachorro um pouco molhado. “Vão já secar o cachorro” diz a diretora “ele vai se resfriar!”
A Diretora adjunta chega e pergunta: “Vocês não estão amando esta escola?” Sim, devo confessar que sim.

Sábado sereno, passo a tarde lendo o “Terra e Cinzasâ€, conto do escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi sobre o sofrimento trazido pela guerra. Uma aldeia afegã é bombardeada e quase todos os seus habitantes são mortos. Sobram um velho, seu neto e um projeto: contar ao filho, que trabalha numa mina próxima, o que ocorrera. A mulher, a nora, o outro filho, todos haviam desaparecido.

O velho se sente despreparado para dar a triste notícia ao filho. Mas tem que fazê-lo. Sente-se igualmente sem condições de lidar com o neto pequeno que ficara surdo com o bombardeio. Vai com ele até as cercanias de uma ponte onde espera uma carona até a mina. É o primeiro contato do menino com outros adultos após o bombardeio. Há catástrofes a serem explicadas. O avô e o neto se empenham em traduzir acontecimentos aos outros.

A surdez é descrita pelo menino, que tampouco entende exatamente o que se passa, como conseqüência da ação dos tanques russos. Eles “roubaram a voz da gente e foram embora. Eles levaram até a voz do meu avôâ€. E prossegue explicando “ele não pode mais ralhar comigoâ€. Em outro momento, tenta aclarar os fatos perguntando ao avô: “Vô, os russos vieram tirar a fala de todo o mundo? O que eles fizeram com todas as vozes?”

A leitura me fez lembrar de uma cena bonita que vira ao visitar a Escola Municipal Joaquim da Silva Gomes em Santa Cruz. Após percorrer as salas e conversar com professores e alunos, assisti a uma apresentação feita por um grupo de adolescentes: um coral de Libras. Os jovens, preparados por uma professora, “cantaram†em Libras duas músicas populares. A explicação: a escola recebera no ano passado uma menina surda que, segundo o professor Sinvaldo, acabou repetindo, pois ninguém à época sabia a linguagem de sinais para ajudá-la. Uma professora nova trouxe não apenas o conhecimento de Libras, mas uma nova perspectiva a toda a escola: ensinar todos os colegas de classe da Keila a se comunicarem com ela.

As vozes voltaram, os russos não venceram!