Olho meu pai e o vejo de forma diferente. Sempre o percebi como um sábio: aquele a quem as pessoas pedem conselhos, o que sabe o que se passa na Economia e na Política nos mais diferentes países. Por isso mesmo, passa um ar de sensatez, de serenidade e, por vezes, de preocupação. Também ele, como a Clarice Lispector colocou em sua Ãgua Viva, preocupa-se com o mundo pois nasceu encarregado.

Mas esta noite é diferente. Sinto-o numa alegria que ele não se permitiria expressar em outras circunstâncias. Noite de autógrafos de seu livro, escreve dedicatórias longas por três horas, sem parar de sorrir e lembrando o que o une a cada uma daquelas centenas de pessoas. Aos 81 anos, meu pai.

Ricardo e eu havíamos resolvido dar o livro que retrata a vida dele, de presente de 80 anos. Contratamos a Márcia Camargos, historiadora e escritora, para entrevistá-lo e redigir a obra. Ela chamou o Orlando Maretti para ajudá-la e, durante um ano, estivemos às voltas com entrevistas, versões preliminares, versão final, fotos e apresentações. Meu pai combinava alegria por tempos reencontrados e ansiedade pelo produto final do trabalho. Debatemos em família muitos episódios sobre os quais havia ainda dúvidas, vasculhamos caixas e álbuns de fotos, reconstruímos percepções.

Este exercício coletivo deu-lhe ainda mais sentido à vida e, no dia 13, ao lançarmos o livro, reuniu diferentes pessoas que são detentoras de pedacinhos desta história. A história de um imigrante romeno que há 60 anos chegou ao Brasil, para aqui construir sua vida, uma empresa e sua família. A vida de um homem que tem valores fortes e procurou, nas mais difíceis situações, transmiti-los à família. Mesmo quando seu filho mais velho morreu, quando sua filha foi presa por suas opiniões, quando seu único sobrinho se matou deixando dois filhos por criar, mesmo então, manteve seus valores e não deixou a vida vencê-lo.

Fez muitos amigos no Brasil e no mundo, mas nunca se esqueceu dos que deixou em seu país de origem. Ocupou-se e ainda se ocupa de cada membro da família.

Naquele 13 de abril, logo após o lançamento do seu livro na FIESP, não dormi, com a emoção da noite. Nem eu, nem meu pai, Maurice Costin.