Feriado prolongado torna-se boa oportunidade para reunir os filhos. Convido Marina e Maurício e aproveito para incluir o meu sobrinho, Guilherme e meus cunhados. A eles se junta meu neto Tiago que pareceu gostar da possibilidade de conviver com os dois rapazes.

Mesmo com tanta gente, minha leitura do Ma Jian, Pequim em Coma, avançou bastante. A história recente da China vai aparecendo lentamente por meio de lampejos de consciência e memória de um estudante atingido por uma bala no episódio da manifestação estudantil de 1989 na Praça da Paz Celestial. Conto-lhes algumas partes que me chamaram mais atenção. A morte de 3 milhões de chineses na Revolução Cultural, a modernização econômica empreendida por Deng Xiaoping, que pouco depois apóia a violenta repressão ao movimento por mais liberdade, a alegria que os estudantes expressavam quando tinham contato com obras de literatura universal ou até com textos de Freud. Um dos meninos comenta sobre a metáfora contida no título- Pequim, de fato, encontrava-se em coma.

Nestes dias, fizemos várias vezes a caminhada de casa para o Arpoador. Momento de muitas conversas, brincadeiras e observação atenta da paisagem, inclusive a urbana. Dias frios, o mar não tenta ninguém. Andamos. Conto-lhes o livro e ouço suas reflexões. Na volta, fim de tarde, leio em voz alta um dos discursos radiofônicos que Thomas Mann fez durante a Segunda Guerra Mundial pela BBC . Ele se dirigia a seus compatriotas alertando-os, em 1940, da loucura em curso e que só faria se agravar. No fim das contas são fenômenos assemelhados. Dois totalitarismos. O Arpoador observa nossas conversas em silêncio.