Sábado sereno, passo a tarde lendo o “Terra e Cinzasâ€, conto do escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi sobre o sofrimento trazido pela guerra. Uma aldeia afegã é bombardeada e quase todos os seus habitantes são mortos. Sobram um velho, seu neto e um projeto: contar ao filho, que trabalha numa mina próxima, o que ocorrera. A mulher, a nora, o outro filho, todos haviam desaparecido.

O velho se sente despreparado para dar a triste notícia ao filho. Mas tem que fazê-lo. Sente-se igualmente sem condições de lidar com o neto pequeno que ficara surdo com o bombardeio. Vai com ele até as cercanias de uma ponte onde espera uma carona até a mina. É o primeiro contato do menino com outros adultos após o bombardeio. Há catástrofes a serem explicadas. O avô e o neto se empenham em traduzir acontecimentos aos outros.

A surdez é descrita pelo menino, que tampouco entende exatamente o que se passa, como conseqüência da ação dos tanques russos. Eles “roubaram a voz da gente e foram embora. Eles levaram até a voz do meu avôâ€. E prossegue explicando “ele não pode mais ralhar comigoâ€. Em outro momento, tenta aclarar os fatos perguntando ao avô: “Vô, os russos vieram tirar a fala de todo o mundo? O que eles fizeram com todas as vozes?”

A leitura me fez lembrar de uma cena bonita que vira ao visitar a Escola Municipal Joaquim da Silva Gomes em Santa Cruz. Após percorrer as salas e conversar com professores e alunos, assisti a uma apresentação feita por um grupo de adolescentes: um coral de Libras. Os jovens, preparados por uma professora, “cantaram†em Libras duas músicas populares. A explicação: a escola recebera no ano passado uma menina surda que, segundo o professor Sinvaldo, acabou repetindo, pois ninguém à época sabia a linguagem de sinais para ajudá-la. Uma professora nova trouxe não apenas o conhecimento de Libras, mas uma nova perspectiva a toda a escola: ensinar todos os colegas de classe da Keila a se comunicarem com ela.

As vozes voltaram, os russos não venceram!