Fui, este domingo, visitar meus pais no Clube de Campo de São Paulo, à beira da represa de Guarapiranga. Lá passava férias e fins de semana, durante toda minha infância e adolescência. Encontrei no terraço uma conhecida e me sentei para conversarmos um pouco. Minutos depois, um velho amigo do meu irmão, o Pink, pergunta se pode se sentar também. Minutos depois perguntou de minha mãe e se eu autorizaria uma conversa dele com ela.
Surpreendentemente, eu sabia o tema: busca de raízes. Também vivi isto. Mas deixo-o falar, constatando, de repente, que não conhecia seu nome, nem sobrenome, apenas aquele apelido que vinha de seu modo curioso de andar, semelhante ao da Pantera Cor de Rosa. Numa brincadeira de adolescentes virara Pink.
Pink me contou então que seu pai, imigrante húngaro, já falecido, raramente falava do passado. Com sua morte, começara a juntar pedaços e a desconfiar que ele era judeu. Mais ainda, que havia algo entre ele e Raoul Wallemberg, o cônsul sueco que havia salvo tantas vidas de judeus húngaros. Ninguém estava mais vivo para esclarecer as dúvidas de Pink. Então ele se lembrou de minha mãe.
Nunca teria imaginado que Pink tivesse alguma conexão com minha mãe, mas prometi intermediar o encontro dos dois. Então ele me deu um pedaço de papel onde escreveu seu nome e email- Marco Szili.
Uma luz se acendeu e me lembrei de minha avó, Mimi, falando de um certo Szili.
Pouco depois almoço com meus pais e falo do Pink. Ao ouvir o nome Szili, meu pai disse que naturalmente ele era judeu. Mais ainda, conta que uma tapeçaria que temos em casa teria pertencido a ele. Quando chegara ao Brasil, sem dinheiro, Szili a vendera a um antiquário e meu pai então a comprara.
Minha mãe emocionou-se. Disse que o Szili fora um dos jovens de um grupo que conheceu quando, aos 17 anos, chegou ao Brasil. Nunca imaginara que o Pink, amigo do meu irmão, fosse filho deste senhor e que ele, como boa parte dos húngaros que aqui chegaram, traumatizados com o que passaram em sua terra natal, evitava já então, tocar no assunto de suas origens. Ele era húngaro. Ponto.
Por que somos condenados a reencontrar questões que a geração anterior quis ocultar? Depois de todas estas lembranças e conversas, fiz um passeio ás margens da Guarapiranga, lembrando do “Em busca do tempo perdido” do Proust, obra que me marcou muito. Há, para cada um de nós, uma história que precisa ser contada e que sabores, cheiros, encontros casuais evocam. Não temos como fugir delas e continuar saudáveis, pois elas nos definem. Elas são partes de nós que não temos como expulsar.