Tenho a privilégio, desde que cheguei aqui no Rio de Janeiro, de ver o mar todos os dias. Da janela de onde escrevo agora, vejo-o acinzentado com riscos mais claros evidenciando correntes. Nenhum barco se atreve a arriscar-se nestas águas, dado o adiantado da hora e a previsão de chuvas fortes.
Mais cedo, numa caminhada interrompida pela chuva, o sol aparecia um pouco e o mar mostrava-se azul, perto de uma praia com bandeiras multicoloridas saudando turistas que vieram para a Parada Gay da cidade. É sempre um momento forte a apreciação do mar. Curioso: aprende-se a apreciar música, a se encantar com obras de arte mais instigantes, mas nascemos gostando do mar.
Muitos livros falam da relação entre o homem e o mar. Joseph Conrad tem vários bons livros nesta linha e o consagrado O Velho e o Mar do Hemingway marcou minha adolescência.
Mas foi com surpresa que voltei ao tema ao ler Onitscha, do prêmio Nobel de Literatura de 2008, Le Clézio.Já havia lido dele o Africano, onde parte de sua infância é reescrita como romance e o cenário é a Ãfrica. Em Onitsha, mãe e filho se encontram num navio, Sarabaya, a caminho do continente africano e constroem representações sobre a cidade da Nigéria onde se encontra um pai desconhecido para o garoto e amado mas temido pela mãe.
Nos capítulos iniciais, o navio ocupa a cena, mas deixa vislumbrar um mar que esconde o futuro, enfeita o pôr do sol a cada dia e permite que a costa da Ãfrica se mostre progressivamente, desnudando-se aos poucos. Os pássaros que fazem rasantes sobre o navio, tentando entender o curioso grupo humano que se desloca nas águas, também travam relação com um mar que agora se encosta em cidades africanas quentes e de pronto detestadas por Maou, a mãe do menino.
Da mesma forma como amo o mar, tive um contato amoroso com a Ãfrica, que conheci na década de 80. Não se me afigura, o continente, como um lugar a ser rejeitado, mas como uma terra depositária de um segredo, como diz o livro. Ao desvendá-lo, o mundo saberá reconstruir sua história.