Borges dizia que toda a literatura é autobiográfica. De fato, quando o autor nos coloca frente a um enredo ficcional, revela mais do que a história. Conta-nos muito de si mesmo: suas percepções, valores e até demônios internos. Fala-nos também de suas geografias: lugares que amou ou odiou, viagens que ambicionou fazer, aventuras em que se envolveu de verdade ou em espírito.

Cada vez mais procuro o território ou o ambiente nos relatos. Isso porque a leitura também carrega uma tentativa autobiográfica. Ao menos a minha é assim. Quero reencontrar meus lugares, vividos ou imaginados. Quero até me surpreender com o que nem consegui imaginar e, ao me defrontar com tal espaço, reconhecê-lo como familiar.

Em muitos casos recorro a mapas, desenho trajetos em cidades que nem conheço. Ulisses permitiu-me, numa segunda leitura, percorrer ruas, praias, visitar lojas e acompanhar barcos numa Irlanda que nunca visitei. Ora, nada disso ocorreu quando o li pela primeira vez. Simplesmente acompanhei o enredo.

Dois livros que li recentemente me levaram a um contato mais forte com geografias, por motivos diferentes: o Rei Branco de Gyorgy Dragoman e Onitsha de Le Clézio, de que já falei neste blog.
O primeiro livro reúne dois países que me são caros, a Hungria e a Romêmia. Meu pai é romeno e minha mãe húngara. Gyorgy, como meu pai, nasceu na Romênia, mas integrava a minoria húngara. O livro se passa numa Romêmia que me pai conheceu, em que a ditadura invadia todos as dimensões da vida cotidiana, a ponto de se fazer presente na vida de uma criança que vive as consequências de uma mesquinharia que não vem só do regime. Cresci ouvindo histórias que poderiam estar presentes no livro.
Em Onitsha, uma Ãfrica vibrante, mas difícil, onde o africano é visto com certo desdém e preconceito por colonizadores ou mais recentemente por quem nela vai fazer negócios ou viver temporariamente. Esta Ãfrica que conheci e amei.
Livros que contam histórias de viagens que fiz ou farei. Ao menos percorrendo paisagens que ficarão como páginas escritas, paisagens ficcionais repletas da vida de seus autores. Repletas da minha vida.