Recentemente, pudemos presenciar algumas transformações que puseram a pensar os economistas, os cientistas polÃticos e especialistas em gestão de polÃticas públicas. A primeira diz respeito ao novo presidente eleito nos Estados Unidos que se diferencia em diversos aspectos de seus predecessores: formação acadêmica mais sólida, um estilo mais transparente, uma proposta de mudança que reconsidera o papel do Estado na Economia. Uma segunda relaciona-se ao aprofundamento da crise econômica e financeira que tem feito despencar as bolsas em todo o mundo e desaparecer o crédito e que coloca uma parte do planeta tecnicamente em recessão. A mudança que completa o ciclo é a tardia mas oportuna inclusão do enfrentamento do aquecimento global na esfera federal americana, ecoando um processo há algum tempo presente na agenda de alguns estados americanos e muitos paÃses da OCDE.
Na verdade, os três temas se entrelaçaram na campanha presidencial e, mais fortemente ainda, na transição que antecedeu a posse de Obama. O novo presidente optou por um caminho de elevado risco: ao se apresentar como o candidato da mudança elevou as expectativas, num cenário difÃcil em que a arrecadação de impostos não será o forte para fazer face a novas funções para o Estado americano. Ao contrário, com a crise, haverá uma expectativa de gastos públicos elevados não só para assegurar a saúde (e outros serviços sociais) dos cidadãos desassistidos, mas também a das empresas à beira da falência, como o pacote para bancos e a indústria automobilÃstica. O aquecimento global, agora reconhecido pelos mais céticos e até pelo presidente Bush que, como nos lembra Holbrook na Foreign Affairs de outubro, só o fez após perder sete anos e meio se recusando a abordar o tema. O mesmo não se passou na campanha: os dois candidatos presidenciais, McCain e Obama, levaram a sério o aquecimento global. Obama apresentou um plano mais completo,com taxas ambiciosas de redução de emissões e um mecanismo de mercado (o chamado cap and trade) já adotado por alguns governos estaduais. A vitória de Obama coloca a possibilidade de adoção do seu plano como algo viável, embora haja receios de que o agravamento da crise (inclusive com uma brutal redução do preço do barril de petróleo) traga menor sentido de urgência e obstáculos para os investimentos previstos no plano.
Mas a crise pode significar uma oportunidade de aumento dos investimentos em eficiência energética e de uso de fontes de energia alternativas, entre os quais o etanol. No meio da atual crise, companhias como a Dow Chemical enviaram aos candidatos a proposta de um plano de energia para os Estados Unidos que inclui não apenas eficiência energética como medidas para a redução de emissões e estÃmulo ao chamado seqüestro de carbono (em que se evita que o carbono vá para a atmosfera). Fundos aparecem para o investimento em tecnologias que possam fazer face aos riscos ao planeta surgem, tanto com base em orçamentos públicos como no sistema cap and trade, mecanismo de mercado que cria limites para as emissões de gases de um determinado setor. Com base nos limites estabelecidos, são lançadas permissões de emissão e cada participante do esquema determina como cumprirá estes limites. A negociação de permissões de emissão é o centro deste sistema, sendo que as empresas que possuem mais emissões do que o total convencionado são obrigadas a comprar uma quantidade suficiente de permissões para ficar dentro dos limites. As empresas que ficarem abaixo das metas de emissão podem então vender permissões. Uma adaptação do mecanismo será utilizada pelo governo da Califórnia, como chegaram a anunciar os governadores Schwartzenegger e Eduardo Campos, para apoiar a redução do desmatamento no estado de Amazonas.
Em artigo no Estadão, José Goldemberg mostra que energias renováveis têm, mesmo na crise, grande potencial para crescer, ajudando o mundo a reduzir sua dependência de combustÃveis fósseis. Esta possibilidade traz, segundo o ganhador do cobiçado prêmio Planeta Azul, o Nobel do conservacionismo, uma conseqüência interessante para paÃses em desenvolvimento, como o Brasil, onde sol e terra são abundantes: o uso de energias renováveis gera de dez a cem vezes mais empregos que o petróleo ou a energia nuclear, para a mesma quantidade de energia produzida.
Mas há um elemento necessário à sustentabilidade do planeta que se evidenciou pouco na fala do novo presidente americano nos últimos dias: a relação entre a crise e a Educação. Os Estados Unidos vêm desenvolvendo nos últimos anos o “No Child Left Behind†que, embora com possibilidades importantes de aperfeiçoamento, tem competentemente enfatizado o que é mais importante na Educação: a aprendizagem das crianças e jovens, desenvolvendo métricas e avaliando a Educação oferecida a partir do desempenho de crianças e jovens em testes padronizados. As escolas mal avaliadas têm recebido assistência técnica do governo para recuperar a aprendizagem. Obama diz em seu site de campanha que vai reestruturar o programa para evitar que os professores tenham que focar apenas nos testes. A afirmação faz sentido, já que a Educação não deve ter como finalidade avaliações: estas apenas geram medidas para que se possa saber como andam os estudantes, promover correções de rumo e informar os cidadãos sobre resultados da aplicação do dinheiro dos seus impostos. Preocupou-me porém que o núcleo da frase seja o professor. Ele é o principal ator do processo, não a finalidade da Educação.
Temos mais três anos para avaliar os avanços ou retrocessos de Obama em gestão da crise, meio-ambiente e educação, três elementos na construção da solidariedade inter-geracional. Afinal, que mundo entregaremos às novas gerações?



Março 12th, 2010 às 10:20 pm
Claudia, um dos principais desafios do educador é estar realmente preparado para saber como avaliar o seu aluno. Aceitar a premissa de que “quem avalia também deve ser avaliado”. Testes e provas são fundamentais para a avaliação, mas não deveriam ser considerados como critérios exclusivos no processo decisivo que culmina nos conselhos de classe. Por outro lado aparece como componente complicador, aquele questionamento: que conteúdos são indispensáveis na avaliação dos nossos alunos? Na continuação do dilema, fico imaginando cada um dos nossos alunos, nas suass individualidade, com os seus perfis socioeconômicos diferentes e vivendo em bairros e regiões que apresentam, entre si, tantas diversidades culturais. Se, no âmbito de uma turma de apenas 40 alunos, encontramos tantas cabeças e corações tão diferentes, como imaginar um processo de avaliação englobando toda uma rede com milhares de alunos? É muito complicado, ainda que diante de uma sociedade que não vai selecionar seus cidadãos e muito menos qualificá-los profissionalmente levando em conta tantas diferenças socioculturais.