Entro na sala de realfabetização na Escola Leila Barcelos na Cidade de Deus e pergunto às crianças, todos na faixa dos 12 anos, quais os seus sonhos. “Quero ser médica†afirma uma menina que interrompe a fala logo, para acrescentar em seguida “sabe, tia, até o mês passado, eu não sabia ler nem escrever. Foi ela que me ensinou†e apontou a professora. A professora começou a chorar.

Quem trabalha com educação certamente já viveu momentos bonitos de emoção como este, mas o que se passa na Cidade de Deus supera outras possibilidades. A realfabetização dos 28.000 analfabetos funcionais das escolas públicas do Rio está em curso em toda a cidade e muitos professores me fazem relatos de superação e do prazer que as crianças sentem. Mas com a Cidade de Deus a situação é um pouco diferente. Após tornar-se um sucesso mundial pelas razões erradas, tão bem retratadas no filme de Fernando Meirelles, há um clima diferente na favela. Recentemente pacificada, embora com problemas de segurança aqui e ali, a região vive uma bonita volta à vida normal. Uma vida com desafios, certamente, desigualdades, falhas de infra-estrutura, mas é um reinício.

Este reinício tem um impacto forte em Educação. Muitas escolas foram se esvaziando durante os anos de confrontos armados, com os pais temerosos de enviar crianças às aulas e professores assustados para ir trabalhar. Como resultado, o IDEB (Ãndice de Desenvolvimento da Educação Básica), que mede o desempenho das escolas ficou muito ruim. Agora, a situação é outra. As crianças estão de volta às escolas e creches, com um aumento médio de 30% na freqüência escolar e cerca de 10 turmas de realfabetização foram montadas para dar conta do atraso dos alunos.

Certamente persistem problemas na educação. Há insuficiência de creches e professores, o que começa agora a ser resolvido. Mas, com o programa Escolas do Amanhã, destinado especificamente para estas áreas em que o conflito prejudicou a aprendizagem, a Cidade de Deus poderá certamente honrar seu nome.