Os resultados de diferentes avaliações de qualidade da Educação em Português e mesmo em Ciências e Matemática, têm mostrado que nossas crianças e jovens não compreendem questões simples. A Prova Brasil, aplicada a alunos das escolas públicas do País em 2007, mostrou que 61% dos de 5º ano não conseguem identificar as idéias mais importantes de um texto simples dirigido a crianças de 10 anos e 60% dos de 9º não sabem interpretar um texto dissertativo. Infelizmente, estes mesmos resultados aparecem num teste internacional organizado pela OCDE, o PISA, programa internacional de avaliação comparada, cuja principal finalidade é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais, avaliando o desempenho de alunos na faixa dos 15 anos, idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países. O Brasil tem se classificado sistematicamente nas últimas posições em leitura e interpretação de textos.
O consenso entre especialistas é que o fraco desempenho em interpretação de textos advém da falta de hábito de leitura entre os jovens e, surpreendentemente, entre seus professores. Pesquisa da Confederação dos Trabalhadores em Educação, publicada em 2003, mostra que 60% dos professores do Ensino Básico não têm o costume de ler. Isso é evidente não só nas escolas, como nas famílias. Pais não são vistos lendo livros por seus filhos, que, assim, passam a associar a leitura com obrigações escolares. Não vemos pessoas com livros na mão em parques, transporte público ou em aviões
Ao procurar dar um salto de qualidade na Educação Carioca esta foi uma das minhas preocupações. Tinha consciência de que não basta realfabetizar os analfabetos funcionais, dar reforço ou capacitar professores. É importante adotar um programa estruturado de formação de hábitos de leitura. Devo dizer que encontrei terreno fértil. Quase todas as escolas têm salas de leitura, com um professor alocado para atividades a ela relacionadas e um acervo interessante. Visito a cada semana escolas e encontro alguns bons projetos para desenvolver as competências leitoras das crianças e jovens.
Mas é importante ter uma ação mais forte de promoção de hábitos de leitura, tanto para alunos como para professores. Assim, criamos o Rio uma Cidade de Leitores, lançado há pouco menos de um mês na Academia Brasileira de Letras. Com o auxílio da Comissão Carioca de Leitura, integrada por intelectuais e militantes da leitura, elaboramos um programa que inclui o reforço dos acervos de escolas, a capacitação de mediadores de leitura e a doação de dois livros por trimestre a cada professor para desenvolver entre eles o hábito da leitura por prazer. Os cerca de 30.000 professores darão seus votos até o dia 5 de junho numa lista de 10 livros literários, para definir os quatro que irão ser distribuídos neste trimestre: dois nacionais e dois estrangeiros. A lista combina livros clássicos com obras mais contemporâneas premiadas. Uma biblioteca para o professor, recheada de boa literatura e com um acervo instigante e atualizado e não apenas obras de didática certamente será útil aos mestres.
Entre estes livros está um de Guimarães Rosa que me marcou especialmente: o “Primeiras Estóriasâ€. Ao coordenando um círculo de leitura para jovens de escolas públicas da periferia de São Bernardo em São Paulo, ouvi Breno, um rapaz de 15 anos, comentar sua paixão por Guimarães Rosa. “Ele finge que o conto vai ter um final de um tipo e somos atropelados por um fim diferenteâ€. É, alguns autores “fingem†nos enchem de pistas falsas só para nos surpreender pouco depois e, assim, nos fazer pensar e, sobretudo, ter prazer. Que a Educação se beneficie deste prazer e assim possamos mudar os tristes números da Educação ao menos na nossa cidade!