Logo após a notícia da gravidade do problema das chuvas no Rio de Janeiro, constatei que haveria um importante trabalho a ser feito com alunos e professores da rede municipal. Os professores, certamente apreensivos com as condições em que encontrariam as crianças, poderiam se sentir pouco instrumentalizados para lidar com a dor que encontrariam no semblante de seus alunos. Os alunos, mesmo os que não perderam casas, pertences ou colegas, provavelmente conviveram com o clima de sofrimento que se instalou na cidade.
Visitei inicialmente, antes mesmo que as aulas pudessem voltar, as escolas que serviram de abrigo para famílias. Reuni-me com as mães, para informar que poderiam mandar as crianças às escolas, mesmo sem uniformes ou material escolar, pois elas seriam bem recebidas. Todas as diretoras foram orientadas neste sentido.
No dia seguinte, com a retomada das aulas, visitei escolas para agradecer o empenho visível dos professores e conversar com os alunos, especialmente em escolas que estavam próximas às áreas em que houve deslizamentos.
Numa delas, depois de conversar um pouco com as crianças sobre o ocorrido, uma delas, de uns 7 ou 8 anos, se identificou como membro de uma família que tudo perdera. Senti que o garoto desejava falar e pedi detalhes. Perguntei se estava hospedado na escola, o que ele confirmou.
Ao sair da sala de aula, ele me chamou e disse-me que queria me dar um presente. Deu-me sua caneta. Emocionada, não sabia o que fazer- aceitar o pouco que ele tinha e de que eventualmente sentiria falta? Percebi que tinha que aceitar. Ele precisava perceber que ainda tinha o direito de ser alguém capaz de desfazer-se de algo para agradar alguém. Ele tinha o direito de ter sua dignidade resguardada. Aceitei.
Guardei a caneta como um símbolo!