Logo após a notÃcia da gravidade do problema das chuvas no Rio de Janeiro, constatei que haveria um importante trabalho a ser feito com alunos e professores da rede municipal. Os professores, certamente apreensivos com as condições em que encontrariam as crianças, poderiam se sentir pouco instrumentalizados para lidar com a dor que encontrariam no semblante de seus alunos. Os alunos, mesmo os que não perderam casas, pertences ou colegas, provavelmente conviveram com o clima de sofrimento que se instalou na cidade.
Visitei inicialmente, antes mesmo que as aulas pudessem voltar, as escolas que serviram de abrigo para famÃlias. Reuni-me com as mães, para informar que poderiam mandar as crianças à s escolas, mesmo sem uniformes ou material escolar, pois elas seriam bem recebidas. Todas as diretoras foram orientadas neste sentido.
No dia seguinte, com a retomada das aulas, visitei escolas para agradecer o empenho visÃvel dos professores e conversar com os alunos, especialmente em escolas que estavam próximas à s áreas em que houve deslizamentos.
Numa delas, depois de conversar um pouco com as crianças sobre o ocorrido, uma delas, de uns 7 ou 8 anos, se identificou como membro de uma famÃlia que tudo perdera. Senti que o garoto desejava falar e pedi detalhes. Perguntei se estava hospedado na escola, o que ele confirmou.
Ao sair da sala de aula, ele me chamou e disse-me que queria me dar um presente. Deu-me sua caneta. Emocionada, não sabia o que fazer- aceitar o pouco que ele tinha e de que eventualmente sentiria falta? Percebi que tinha que aceitar. Ele precisava perceber que ainda tinha o direito de ser alguém capaz de desfazer-se de algo para agradar alguém. Ele tinha o direito de ter sua dignidade resguardada. Aceitei.
Guardei a caneta como um sÃmbolo!
11 Abril 2010



Abril 22nd, 2010 às 10:18 pm
Claudia, por esses dias fiquei sabendo, a partir de conversas com alunos e responsáveis, que em Santa Cruz, uma das comunidades conhecidas como São Fernando, no eixo da Avenida João XXIII, havia sido alagada. A maré estava acima do nÃvel normal e as águas despejadas pelas chuvas torrenciais não encontraram vazão suficiente. Os lavradores, muitos deles descendentes de japoneses, perderam quase a totalidade da plantação de hortifrútis. Por outro lado pudemos constatar que o acúmulo de lixo também foi responsável em grande parte para agravar a situação trágica vivenciada pela cidade. Penso que a SME as Coordenadorias de Educação e as escolas de um modo geral deveriam também começar um trabalho de conscientização dos alunos para o sentido de coleta correta e seletiva do lixo bem como o plantio de árvores. Logo, logo a sociedade vai esquecer a tragédia que desabou sobre o Rio de Janeiro em abril de 2010, mas os governos, incluÃndo as escolas da rede municipal, deveriam dar inÃcio a um programa permanente de orientação aos moradores das áreas mais pobres, principalmente, para evitar o lançamento do lixo em locais inapropriados.