Acabei de ler, hoje cedo, um livro com a correspondência que Clarice Lispector trocava com suas irmãs, nos anos iniciais de sua carreira como escritora. Foram anos em que ela acompanhava o marido diplomata, Maury Gurgel Valente, em cidades como Nápoles, Berna, Torquay (na Inglaterra) ou Washington.
Cheias de candura, as cartas não me pareceram diferir em muito do estilo de correspondência adotado por qualquer membro de minha famÃlia que vivera nos anos 40 e 50. Pouco a pouco, porém, fui percebendo nuances que me passaram despercebidas numa leitura apressada: a ansiedade que sentia antes de criar, a insegurança frente à possibilidade de rejeição das obras por parte de crÃticos que respeitava (alguns deles membros da famÃlia), as leituras que fazia, os filmes que assistia. Em suma, em cartas do perÃodo da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e do pós guerra, o que certamente é interessante por trazerem detalhes que ajudam no registro de uma época em que brasileiros, mesmo mais abastados, tinham dificuldades em viajar, fica evidente a gênese de uma grande escritora.
Certamente Clarice já escrevia antes, sofrera outras influências expressas inclusive na sua condição de ucraniana judia criada entre o Nordeste e o Rio. Mas a fase em que se encontrava no exterior, como evidenciam outras cartas enviadas a Otto Lara Resende ou a Rubem Braga, foi marcante para afastá-la da cena, permitindo-lhe enxergar o paÃs sob outro ângulo, para em seguida reencontrá-lo. Permitiram também, e isso não é pouco, colocá-la em contato com o existencialismo de Sartre.
Em clara sincronicidade, li poucas horas depois, no Estado de São Paulo, que ocorreu ontem, nos festejos dos 90 anos de nascimento de Clarice, um encontro em Nova York, cujo tema eram Os mistérios de Clarice. Benjamin Moser, Scliar, Nadia Gotlieb e outros debatedores tentaram esclarecer o tema proposto para a mesa.
Mas, para mim, é uma frase dela, do Ãgua Viva, que dá a resposta :
- “Nasci encarregada! “
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