Numa de minhas visitas a escolas, informei a direção sobre a prova que aplicaríamos na próxima semana para identificar analfabetos funcionais. O objetivo, esclareci para eles, era dimensionar o tamanho do problema para podermos então re-alfabetizar crianças de 4º e 5º anos ainda não integralmente alfabetizados.

Qual não foi minha surpresa quando a coordenadora pedagógica me pediu para incluir no projeto os jovens de 6º ano, a maior parte com 11 anos. Para ilustrar sua tese, mostrou-me produções de texto de alguns alunos desta série, em boa parte absolutamente incompreensíveis. Tirei uma cópia de um deles e, ocultando o nome da criança, mostrei à equipe. Há algo de extremamente errado na Educação das crianças do Brasil. Já havia visto algumas redações parecidas na mesma faixa etária em outras escolas públicas de outras cidades, mas neste caso, o problema estava nas mãos da equipe que lidero. Junto com o time da Secretaria, decidimos incluir os analfabetos funcionais de 6º ano na re-alfabetização.

Como chegamos a esta triste situação? Quando me deparo com o IDEB (Ãndice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Rio, os dados parecem bons para a realidade educacional brasileira: 4,5 para as séries iniciais e 4,3 para as séries finais do Ensino Fundamental. Trata-se de um resultado superior à média nacional. Mas quando se procura entender o que há por trás deste indicador, a verdade aparece com força. O IDEB é um índice síntese: inclui a aprendizagem das crianças, testada no Prova Brasil em 2005 e 2007 e dados de fluxo escolar, como repetência e evasão. Estes dois últimos melhoraram muito, mas a aprendizagem apresentou sérios problemas. Em 2005, apenas 33,05% das crianças do atual 5º ano mostraram nível de conhecimento de Português adequado para a série em que estudavam. Pois bem, em 2007, este percentual caiu: Apenas 29,07% dos alunos demonstravam saber o esperado! Em Matemática, só 23,20% dominam o conteúdo previsto para o 5º ano.

Penso que temos uma crise de aprendizagem no País e o Rio, embora esteja melhor que outros municípios, não é, infelizmente, uma exceção. As escolas funcionam, os professores são de melhor nível que a média nacional, os diretores atuam e parecem motivados. Então, por que as crianças não aprendem como deveriam?

Sim, a aprovação automática tem uma parte de responsabilidade na situação. De alguma maneira, houve uma incompreensão da progressão continuada e as crianças passavam para frente sem aprender. Não havia um programa estruturado de recuperação do conhecimento porventura não adquirido. O prefeito Eduardo Paes corretamente acabou com a aprovação automática e começou um esforço grande para recuperar a aprendizagem dos alunos das escolas públicas. Foi mantido apenas o ciclo de alfabetização, criado em 1999. Há hoje um consenso de que as crianças se alfabetizam em ritmos diferentes e que é importante se dar mais tempo para que o processo se construa bem, inclusive para evitar a produção de novos analfabetos funcionais. Mas, mesmo aqui, é vital haver um monitoramento firme do estágio em que a criança se encontra e a verificação da necessidade de ações de correção de rumo.

Começamos o ano letivo com todas as escolas em revisão de Português e Matemática. Cada professor recebe um caderno com orientações e cada aluno de cada série tem uma apostila com o que deveria ter aprendido na série anterior. A base é o currículo do município. Esta revisão dura 40 dias. No final do processo, todas as crianças são avaliadas nas duas disciplinas, para ver se precisam de recuperação. As de 7 anos recebem a Provinha Brasil, que faz um diagnóstico da etapa em que se encontram no processo de avaliação. Com estas informações, podemos iniciar a recuperação da aprendizagem de todos os alunos que dela necessitam. Cadernos de recuperação são preparados pela Secretaria com esta finalidade, dando desta forma instrumentos para o professor. Os analfabetos funcionais são re-alfabetizados por professores da rede capacitados pelo Instituto Ayrton Senna.

Não podemos deixar nenhuma criança para trás!