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Recebi, com muita alegria, o título de Cidadã Carioca. Foi proponente a veradora Rosa Fernandes, a quem não conhecia antes de assumir meu cargo de secretária de Educação do Rio. A notícia veio antes da festa e deixou-me particularmente lisonjeada. Sim, sei que algumas destas honrarias podem ser inerentes ao cargo. Recebi também outras comendas e sou, mesmo, cidadã honorária de outras cidades. Afinal, ocupei muitos cargos públicos nesta minha trajetória técnica na Administração Pública.
Mas tenho uma relação muito especial com o Rio. Quando meu pai veio da Romênia para o Brasil, esta foi sua primeira opção de cidade. Não ficou aqui por temer que a beleza das praias o distraísse em demasia do seu firme propósito de construir uma carreira sólida. Sorte minha, pois assim, ele conheceu minha mãe que viera da Hungria a São Paulo.
Há anos viajava para o Rio a trabalho e sempre tirava fotos da sua paisagem ímpar. Trata-se da cidade mais bonita do mundo, disto não tenho dúvidas. Assim, fiquei tentada, quando recebi o convite do prefeito Eduardo Paes para assumir a secretaria da Educação do município, não apenas por gostar muito desta importante política pública, mas por ser a cidade do Rio. Poder transformar a Educação na cidade, respeitando seu passado (afinal muitos vieram antes de mim e fizeram um trabalho importante na rede de escolas públicas do município), mas construindo as bases de seu futuro, é algo que me mobiliza a cada dia. Acordo a cada manhã extremamente motivada para este desafio que me traz uma paixão inigualável. Estou apaixonada pela Educação no Rio!
Assim, depois de um ano e quatro meses de atuação, ser reconhecida justamente por esta experiência apaixonante, trouxe-me uma dupla alegria: a de ser cidadã da cidade que amo e a de ser por conta de uma atuação que vem gerando resultados.
Foi um dia muito especial, o 7 de maio de 2010. Que meus pais, brasileiros por opção e não por nascimento, possam ter justo orgulho de sua filha, que uma cidade, que não a sua, quis ter por habitante!

Visitei, na última quinta-feira, a Escola Municipal Grandjean de Montigny, instituição que apresentara excelentes resultados na Prova Rio. Fui lá para agradecer aos professores pelo trabalho realizado nesta unidade escolar da região da Pavuna. Como faço, com frequência, nestas ocasiões, perguntei aos alunos de 4o ano quais eram seus sonhos. Para preparar o clima, disse-lhes que o prefeito, o presidente, grandes atletas, todos haviam sentado em carteiras escolares como eles e tiveram seus sonhos. Afirmei que a escola dá ensino de qualidade, mas que o sonho era de cada um e que gostaria de que, depois de terem construído seus sonhos quando adultos, eles se lembrassem que um dia lhes disse que precisariam se empenhar para transformá-los em realidade.
Neste momento, uma menina de cerca de 9 anos começou a chorar, emocionada. Baixinho disse: quero ser veterinária. Que ninguém lhe roube os sonhos e que ela possa, com educação de qualidade e com energia para perseguir seu projeto, tornar-se o que sonha ser. Amém!

A cada duas semanas, tenho a oportunidade de voltar a São Paulo, para visitar meus filhos e meus pais idosos. É um momento muito especial que me permite entrar em contato mais íntimo com suas alegrias ou desventuras. Mas é igualmente nestas ocasiões que me dedico a minha biblioteca pessoal.
Explico: reuni, ao longo de mais de trinta anos, um acervo de cerca de 8.000 livros que, se não incluem raridades próprias de alguns amigos bibliófilos, ao menos contemplam um conjunto de obras de diferentes campos científicos e das artes, e um bom número do que considero o melhor da literatura brasileira e internacional.
Leio, geralmente, de forma desorganizada, movida por paixões do momento. Há fases em que, além dos livros e estudos próprios da minha área de trabalho, me ocupo muito de filosofia, outras em que a história ou a economia atraem minha atenção. E, naturalmente, agarro as obras literárias que, por algum motivo, encontram meu olhar em livrarias ou nas estantes das bibliotecas (inclusive da minha).

Mas esta desorganização tem seu preço. Sinto que o tempo avança e coloca com clareza os limites das minha possibilidades de leitura. Não consigo ler tudo de bom que é publicado. Alguma forma de seletividade se impõe. Decidi, então, que quero ao menos ler os clássicos, ou o que Harold Bloom chama de Cãnone Ocidental (completado por uma ou outra obra de outras tradições).
Já li diferentes obras das listas comumente publicadas neste sentido, mas falta muito ainda. Assim, organizei minha própria lista e comecei na última semana meu novo empreendimento de leitura.
Corri para a Internet e adquiri da Cultura o que me faltava dos gregos. Tendo já lido a Trilogia Tebana e muito de Platão e Aristóteles, comecei com as tragédias gregas. Que prazer: li quase sem interrupções, em voos e a cada noite as tragédias de Eurípedes. Como pude só agora ler As Troianas? Vi a representação desta tragédia quando adolescente, mas não havia pensado em ler esta obra em que as mulheres de Tróia, lideradas por Hécuba, a viúva de Príamos, são levadas cativas e lamentam sua triste sorte. A cena da cidadela incendiada e a do pequeno Astiânax, carregado morto sobre o escudo de seu pai, o valente Heitor, fruto da crueldade dos gregos, trouxe-me um retrato de todas as guerras, de todos os exílios e de todas as escravidões. “Membros meus muito frágeis”, geme a idosa Hécuba “Levai-me, conduzi-me na marcha forçada. Comecemos a triste jornada até nosso cruel cativeiro”. “Ai, Adeus, minha triste cidade!”- completa o coro.
Quantas cenas como estas, sem a plasticidade da obra ficcional do século V A.C., a Humanidade não presenciou?

Numa de minhas visitas a escolas, informei a direção sobre a prova que aplicaríamos na próxima semana para identificar analfabetos funcionais. O objetivo, esclareci para eles, era dimensionar o tamanho do problema para podermos então re-alfabetizar crianças de 4º e 5º anos ainda não integralmente alfabetizados.

Qual não foi minha surpresa quando a coordenadora pedagógica me pediu para incluir no projeto os jovens de 6º ano, a maior parte com 11 anos. Para ilustrar sua tese, mostrou-me produções de texto de alguns alunos desta série, em boa parte absolutamente incompreensíveis. Tirei uma cópia de um deles e, ocultando o nome da criança, mostrei à equipe. Há algo de extremamente errado na Educação das crianças do Brasil. Já havia visto algumas redações parecidas na mesma faixa etária em outras escolas públicas de outras cidades, mas neste caso, o problema estava nas mãos da equipe que lidero. Junto com o time da Secretaria, decidimos incluir os analfabetos funcionais de 6º ano na re-alfabetização.

Como chegamos a esta triste situação? Quando me deparo com o IDEB (Ãndice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Rio, os dados parecem bons para a realidade educacional brasileira: 4,5 para as séries iniciais e 4,3 para as séries finais do Ensino Fundamental. Trata-se de um resultado superior à média nacional. Mas quando se procura entender o que há por trás deste indicador, a verdade aparece com força. O IDEB é um índice síntese: inclui a aprendizagem das crianças, testada no Prova Brasil em 2005 e 2007 e dados de fluxo escolar, como repetência e evasão. Estes dois últimos melhoraram muito, mas a aprendizagem apresentou sérios problemas. Em 2005, apenas 33,05% das crianças do atual 5º ano mostraram nível de conhecimento de Português adequado para a série em que estudavam. Pois bem, em 2007, este percentual caiu: Apenas 29,07% dos alunos demonstravam saber o esperado! Em Matemática, só 23,20% dominam o conteúdo previsto para o 5º ano.

Penso que temos uma crise de aprendizagem no País e o Rio, embora esteja melhor que outros municípios, não é, infelizmente, uma exceção. As escolas funcionam, os professores são de melhor nível que a média nacional, os diretores atuam e parecem motivados. Então, por que as crianças não aprendem como deveriam?

Sim, a aprovação automática tem uma parte de responsabilidade na situação. De alguma maneira, houve uma incompreensão da progressão continuada e as crianças passavam para frente sem aprender. Não havia um programa estruturado de recuperação do conhecimento porventura não adquirido. O prefeito Eduardo Paes corretamente acabou com a aprovação automática e começou um esforço grande para recuperar a aprendizagem dos alunos das escolas públicas. Foi mantido apenas o ciclo de alfabetização, criado em 1999. Há hoje um consenso de que as crianças se alfabetizam em ritmos diferentes e que é importante se dar mais tempo para que o processo se construa bem, inclusive para evitar a produção de novos analfabetos funcionais. Mas, mesmo aqui, é vital haver um monitoramento firme do estágio em que a criança se encontra e a verificação da necessidade de ações de correção de rumo.

Começamos o ano letivo com todas as escolas em revisão de Português e Matemática. Cada professor recebe um caderno com orientações e cada aluno de cada série tem uma apostila com o que deveria ter aprendido na série anterior. A base é o currículo do município. Esta revisão dura 40 dias. No final do processo, todas as crianças são avaliadas nas duas disciplinas, para ver se precisam de recuperação. As de 7 anos recebem a Provinha Brasil, que faz um diagnóstico da etapa em que se encontram no processo de avaliação. Com estas informações, podemos iniciar a recuperação da aprendizagem de todos os alunos que dela necessitam. Cadernos de recuperação são preparados pela Secretaria com esta finalidade, dando desta forma instrumentos para o professor. Os analfabetos funcionais são re-alfabetizados por professores da rede capacitados pelo Instituto Ayrton Senna.

Não podemos deixar nenhuma criança para trás!

Acabei de ler, hoje cedo, um livro com a correspondência que Clarice Lispector trocava com suas irmãs, nos anos iniciais de sua carreira como escritora. Foram anos em que ela acompanhava o marido diplomata, Maury Gurgel Valente, em cidades como Nápoles, Berna, Torquay (na Inglaterra) ou Washington.
Cheias de candura, as cartas não me pareceram diferir em muito do estilo de correspondência adotado por qualquer membro de minha família que vivera nos anos 40 e 50. Pouco a pouco, porém, fui percebendo nuances que me passaram despercebidas numa leitura apressada: a ansiedade que sentia antes de criar, a insegurança frente à possibilidade de rejeição das obras por parte de críticos que respeitava (alguns deles membros da família), as leituras que fazia, os filmes que assistia. Em suma, em cartas do período da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial e do pós guerra, o que certamente é interessante por trazerem detalhes que ajudam no registro de uma época em que brasileiros, mesmo mais abastados, tinham dificuldades em viajar, fica evidente a gênese de uma grande escritora.
Certamente Clarice já escrevia antes, sofrera outras influências expressas inclusive na sua condição de ucraniana judia criada entre o Nordeste e o Rio. Mas a fase em que se encontrava no exterior, como evidenciam outras cartas enviadas a Otto Lara Resende ou a Rubem Braga, foi marcante para afastá-la da cena, permitindo-lhe enxergar o país sob outro ângulo, para em seguida reencontrá-lo. Permitiram também, e isso não é pouco, colocá-la em contato com o existencialismo de Sartre.
Em clara sincronicidade, li poucas horas depois, no Estado de São Paulo, que ocorreu ontem, nos festejos dos 90 anos de nascimento de Clarice, um encontro em Nova York, cujo tema eram Os mistérios de Clarice. Benjamin Moser, Scliar, Nadia Gotlieb e outros debatedores tentaram esclarecer o tema proposto para a mesa.
Mas, para mim, é uma frase dela, do Ãgua Viva, que dá a resposta :
- “Nasci encarregada! “

Há tempos, foi realizado um importante seminário internacional no Rio de Janeiro sobre desenvolvimento infantil que procurou enfatizar a importância da atenção à primeira infância. Especialistas de diferentes partes do mundo mostraram os avanços da área da neurociência e o impacto de programas de creche, pré-escola e atendimento em saúde a crianças e gestantes para a redução das desigualdades e o sucesso escolar.

As pesquisas sobre o tema mostram, com bastante consistência que o acesso a programas de educação infantil melhoram o desempenho do aluno em avaliações de aprendizagem, reduzem a repetência escolar, aumentam a probabilidade de conclusão do Ensino Médio e reduzem comportamentos nocivos como criminalidade, delinqüência juvenil e uso de drogas. Ou seja, ao ter acesso a uma creche e pré-escola de qualidade, a criança terá melhores chances de uma vida mais digna no futuro.

Isso se deve à combinação de um maior estímulo cerebral, na fase em que se formam a maior parte das conexões neurais e de uma alimentação mais apropriadas. Com uma creche em que os profissionais lêem histórias para as crianças pequenas, criam um ambiente em que o brincar possibilita interações ricas com seus pares, em que há uma imersão inicial da criança no mundo letrado, na forma de livros adequados para esta fase, o desenvolvimento ocorrerá de forma saudável e o vocabulário delas será ampliado. Ora, é especificamente no vocabulário que começam as diferenças de chances de sucesso escolar entre ricos e pobres. Uma criança de família mais rica e instruída tem um vocabulário bem mais extenso que a de origem social mais humilde. A partir daí começam as diferenças para a capacidade de se comunicar oralmente e por escrito e entender o que se lê. A creche e uma atenção às famílias que favoreça a leitura e a continuidade dos estudos da mãe ajudam na redução desta desigualdade.

Em recente entrevista à revista Veja, James Heckman, ganhador de prêmio Nobel ressalta a importância de se investir em Educação nos primeiros anos de vida ao afirmar que “uma criança de 8 anos que recebeu estímulos cognitivos aos 3 conta com um vocabulário de cerca de 12 000 palavras – o triplo do de um aluno sem a mesma base precoce. E a tendência é que essa diferença se agraveâ€. E coloca a pergunta que torna clara a raiz das desigualdades no desempenho escolar: “Como esperar que alguém que domine tão poucas palavras consiga aprender as estruturas mais complexas de uma língua, necessárias para o aprendizado de qualquer disciplina?â€.

É com base nestas reflexões que iniciamos o desenho e a implantação de um novo modelo de atendimento à primeira infância que inclui a articulação de diferentes políticas públicas, como a Educação, a Saúde e a Assistência Social e uma agressiva ampliação da rede de creches na cidade. Associa-se a isto uma forte preocupação com a qualidade da atenção oferecida, em que a capacitação de agentes auxiliares de creche será uma prioridade, junto com a maior presença de professores articuladores em cada uma. Um trabalho com a família, com visitações domiciliares também se incorpora ao modelo. Mas o mais importante é prosseguir na transformação em curso do papel das creches. Elas não são mais meros lugares de guarda e proteção de crianças. Creche é lugar de aprender.

Hoje é Dia de Tiradentes. Celebramos este herói que morreu ao defender a ideia de que poderíamos ser livres do jugo do colonizador. Um grande homem. Sim, temos nossos heróis, ou mesmo pessoas que marcaram a história brasileira ao ter uma papel destacado na construção da nação :homens e mulheres que defenderam ideias, romperam fronteiras do conhecimento, criaram obras de arte que se transmitiram ao longo de gerações.
Neste 21 de abril, li, com interesse, a história de S.A. Andrée, um engenheiro sueco que morreu, no final do século XIX, tentando chegar ao Pólo Norte num balão de hidrogênio. Ele e outros dois exploradores, após estudos sobre a dinâmica dos ventos e tentativas anteriores de balonismo exploratório, partiram para uma viagem que, embora mal sucedida, pois não conseguiram chegar até onde pretendiam, garntiu-lhes espaço na História. Ao serem encontrados os corpos e os diarios dos três, uns 30 anos depois, por membros de uma expedição científica, houve uma celebração na Suécia conduzida pelo rei, honrando a memória destes homens que quiseram encontrar um caminho para o Pólo, desafiando o frio, as tormentas e a fome.
Mas, há alguns anos, segundo o excelente artigo que li de Alec Wilkinsin, no New Yorker de 19 de abril, a atitude em relação aos três exploradores mudou: Andrée tem sido por vezes retratado como um homem ambicioso que, para obter fama e reconhecimento, estava disposto a conduzir seus companheiros mais jovens para a morte.
O autor e os estudos mais recentes não compartilham desta visão e resgataram o heroísmo de Andrée e da equipe por ele composta. Não teria sido irresponsabilidade ou pura busca de notoriedade.
Ao ler o artigo, pensei em como este fenômeno acontece aqui também: temos uma obsessão por “dismistificar os heróis”. A história seria determinada por razões econômicas e as pessoas que nela aparentemente tiveram algum papel são apresentadas como personagens limitadas, dadas as suas limitações, as suas características humanas. A consequencia prática desta abordagem envolve mais do que apagar a verdade histórica- leva a uma visão do desenrolar dos acontecimentos que, em nome de uma ciência fria e isenta de romantismo, perde a riqueza do relato da magnífica e, por vezes terrível, aventura de homens e mulheres concretos no planeta.
O ensino de História precisa resgatar nossos heróis. Não para apresentá-los de forma romantizada, mas tampouco para enfatizar determinados defeitos, de forma a mostrá-los como caricaturas de si mesmos. Tiradentes ou Andrée foram grandes homens pelo que fizeram ou buscaram fazer. Sim, o que faz deles pessoas diferenciadas é que são seres humanos como nós, com defeitos ou limitações. E vivam os heróis!

Logo após a notícia da gravidade do problema das chuvas no Rio de Janeiro, constatei que haveria um importante trabalho a ser feito com alunos e professores da rede municipal. Os professores, certamente apreensivos com as condições em que encontrariam as crianças, poderiam se sentir pouco instrumentalizados para lidar com a dor que encontrariam no semblante de seus alunos. Os alunos, mesmo os que não perderam casas, pertences ou colegas, provavelmente conviveram com o clima de sofrimento que se instalou na cidade.
Visitei inicialmente, antes mesmo que as aulas pudessem voltar, as escolas que serviram de abrigo para famílias. Reuni-me com as mães, para informar que poderiam mandar as crianças às escolas, mesmo sem uniformes ou material escolar, pois elas seriam bem recebidas. Todas as diretoras foram orientadas neste sentido.
No dia seguinte, com a retomada das aulas, visitei escolas para agradecer o empenho visível dos professores e conversar com os alunos, especialmente em escolas que estavam próximas às áreas em que houve deslizamentos.
Numa delas, depois de conversar um pouco com as crianças sobre o ocorrido, uma delas, de uns 7 ou 8 anos, se identificou como membro de uma família que tudo perdera. Senti que o garoto desejava falar e pedi detalhes. Perguntei se estava hospedado na escola, o que ele confirmou.
Ao sair da sala de aula, ele me chamou e disse-me que queria me dar um presente. Deu-me sua caneta. Emocionada, não sabia o que fazer- aceitar o pouco que ele tinha e de que eventualmente sentiria falta? Percebi que tinha que aceitar. Ele precisava perceber que ainda tinha o direito de ser alguém capaz de desfazer-se de algo para agradar alguém. Ele tinha o direito de ter sua dignidade resguardada. Aceitei.
Guardei a caneta como um símbolo!

Os resultados de diferentes avaliações de qualidade da Educação em Português e mesmo em Ciências e Matemática, têm mostrado que nossas crianças e jovens não compreendem questões simples. A Prova Brasil, aplicada a alunos das escolas públicas do País em 2007, mostrou que 61% dos de 5º ano não conseguem identificar as idéias mais importantes de um texto simples dirigido a crianças de 10 anos e 60% dos de 9º não sabem interpretar um texto dissertativo. Infelizmente, estes mesmos resultados aparecem num teste internacional organizado pela OCDE, o PISA, programa internacional de avaliação comparada, cuja principal finalidade é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais, avaliando o desempenho de alunos na faixa dos 15 anos, idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países. O Brasil tem se classificado sistematicamente nas últimas posições em leitura e interpretação de textos.
O consenso entre especialistas é que o fraco desempenho em interpretação de textos advém da falta de hábito de leitura entre os jovens e, surpreendentemente, entre seus professores. Pesquisa da Confederação dos Trabalhadores em Educação, publicada em 2003, mostra que 60% dos professores do Ensino Básico não têm o costume de ler. Isso é evidente não só nas escolas, como nas famílias. Pais não são vistos lendo livros por seus filhos, que, assim, passam a associar a leitura com obrigações escolares. Não vemos pessoas com livros na mão em parques, transporte público ou em aviões
Ao procurar dar um salto de qualidade na Educação Carioca esta foi uma das minhas preocupações. Tinha consciência de que não basta realfabetizar os analfabetos funcionais, dar reforço ou capacitar professores. É importante adotar um programa estruturado de formação de hábitos de leitura. Devo dizer que encontrei terreno fértil. Quase todas as escolas têm salas de leitura, com um professor alocado para atividades a ela relacionadas e um acervo interessante. Visito a cada semana escolas e encontro alguns bons projetos para desenvolver as competências leitoras das crianças e jovens.
Mas é importante ter uma ação mais forte de promoção de hábitos de leitura, tanto para alunos como para professores. Assim, criamos o Rio uma Cidade de Leitores, lançado há pouco menos de um mês na Academia Brasileira de Letras. Com o auxílio da Comissão Carioca de Leitura, integrada por intelectuais e militantes da leitura, elaboramos um programa que inclui o reforço dos acervos de escolas, a capacitação de mediadores de leitura e a doação de dois livros por trimestre a cada professor para desenvolver entre eles o hábito da leitura por prazer. Os cerca de 30.000 professores darão seus votos até o dia 5 de junho numa lista de 10 livros literários, para definir os quatro que irão ser distribuídos neste trimestre: dois nacionais e dois estrangeiros. A lista combina livros clássicos com obras mais contemporâneas premiadas. Uma biblioteca para o professor, recheada de boa literatura e com um acervo instigante e atualizado e não apenas obras de didática certamente será útil aos mestres.
Entre estes livros está um de Guimarães Rosa que me marcou especialmente: o “Primeiras Estóriasâ€. Ao coordenando um círculo de leitura para jovens de escolas públicas da periferia de São Bernardo em São Paulo, ouvi Breno, um rapaz de 15 anos, comentar sua paixão por Guimarães Rosa. “Ele finge que o conto vai ter um final de um tipo e somos atropelados por um fim diferenteâ€. É, alguns autores “fingem†nos enchem de pistas falsas só para nos surpreender pouco depois e, assim, nos fazer pensar e, sobretudo, ter prazer. Que a Educação se beneficie deste prazer e assim possamos mudar os tristes números da Educação ao menos na nossa cidade!

Minhas atividades no Rio de Janeiro me absorvem muito- não só em tempo de trabalho, mas me deixam pouco espaço para outras paixões. Sim, estou vivendo uma grande paixão: a tentativa de melhorar a qualidade da Educação oferecida às crianças cariocas não me deixa pensar de forma estruturada e intensa sobre qualquer outra coisa.
Acabei deixando de lado a Casinha. Explico: a Casinha é um lugar mágico onde semanalmente me encontrava com crianças e jovens de bairros de periferia de São Bernardo e Diadema e líamos juntos grandes livros. Coordenei, durante três anos, um destes Círculos de Leitura. Com a competente direção da Catalina, os jovens, de 13 a 17 anos, tinham os exemplares que solicitava de obras como O Banquete do Platão, Primeiras Estórias ou o Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa, Utopia do Thomas More.
Mudei para o Rio, quando assumi meu cargo de secretária municipal de Educação, pensando voltar a cada duas semanas para ir à Casinha. Não consegui. Nem sempre conseguia vir e, quando o fazia, priorizava meus filhos e meus pais. Mantive, porém, contato constante com os jovens que me pediam conselhos sobre faculdades a cursar, livros a ler, pequenos conflitos.
Hoje, feriado passado em São Paulo, pude ir à Casinha e encontrar meus jovens crescidos.
Discutiam em dois grupos distintos. Um debatia apaixonadamente Romeu e Julieta. Liam trechos em voz alta e discutiam se a fala final do príncipe apontava um caminho de redenção ou ainda se questionavam por que apenas as mortes dos protagonistas poderiam salvar as famílias se as anteriores não o haviam feito. Um deles citou Nietzsche e o fez apropriadamente e sem pedantismo. Sorri, orgulhosa, como se tivesse parte neste desempenho intelectual assombroso.
O outro grupo debatia com um grupo de professores e alunos de Belo Horizonte o Vidas Secas de Graciliano Ramos e traçaram interessante paralelo com o conto O Afogado Mais Bonito do Mundo do Gabriel Garcia Márquez. Riram dos supostos ciúmes dos maridos do povoado frente ao cadáver de um belo homem de que suas mulheres tanto cuidavam.
Clima feliz na Casinha de jovens que deixei crianças e agora um pouco mais velhos debatem velhas questões da condição humana. Meus meninos para sempre.